Ano 2002. Grandes mudanças na minha vida. Literalmente grandes. Era suposto eu ter entrado para o 8º ano na escola onde estava desde o 5º. Mas não. Os meus pais queixavam-se que a situação em Portugal era muito má e ia piorar. Eu não percebia nada de política e economia, e, sinceramente, continuo sem perceber. Então os meus pais "queridos" quiseram mudar-se para a Alemanha. Já há algum tempo que andava a aprender alemão porque eles tinham intenções de se mudarem para lá. Eu ia com eles, claro. Alemão era uma língua que me fascinava e gostava bastante de falar. Mas não era isso que me incomodava. E a escola? E os amigos? E a família? Tudo para trás? E será que eu já falava o suficiente para ir para lá até sabe-se lá quando? Eu não queria mesmo nada. Não me sentia preparada nem confiante. Mas tinha de ser...tinha mesmo...
Andei a ver fotos na internet. Alemanha era de facto um país lindo! Uma língua linda, um país lindo e esperava eu, uma casa a condizer! Ao mesmo tempo era uma coisa boa. Tinha alguns problemas em Portugal. Digamos que não era propriamente feliz. Mas abandonar as poucas coisas boas que ainda tinha era algo que me deixava pior que nunca. Que mais poderia acontecer?
Era o último dia de aulas. A despedida dos amigos. Foi uma festa muito boa de manhã até à tarde que me deixou exausta. Mas ri muito, tiramos fotografias de recordação e deram-me alguns presentes. Pediram-me que nunca os esquecesse e que os fosse informando da vida na Alemanha. Todos tinham curiosidade. Mas eu nem por isso. Depois de um longo dia de festa e de tantos risos, as lágrimas invadiam o meu rosto e o dos meus amigos.
- Mandem notícias por net e eu entrarei no MSN sempre que puder! Vá lá pessoal...não é o fim da nossa amizade! Vamos continuar a ser amigos apesar da distância... - tentei confortar os meus amigos mas até a mim me custava dizer aquilo porque não os queria abandonar.
A parte má era deixar tudo. Deixar a família, deixar os meus amigos de longa data, as minhas melhores amigas e acabar a minha banda! Era tudo tão injusto! Cheguei a casa e apesar de ainda estar aqui e saber que ainda me podia encontrar com os amigos naquela semana, já me sentia sozinha, vazia, triste. Como se me tivessem arrancado um bocado de mim. Não havia volta atrás.
Deitei-me na cama por um bocado, agarrada a almofada. Precisava de tempo para mim. Para pensar em tudo, para tentar ver o lado bom das coisas. Mal me deitei, já as lágrimas me escorriam pela cara. Os bons momentos que tinha passado ali eram tantos. Como podiam os meus pais fazer isto? Não havia outra solução?
A parte boa veio-me à cabeça depois de alguns minutos de choro. Portugal não é propriamente um país com muitas oportunidades no mundo da música. Talvez fosse esta a minha oportunidade. Quem sabe? Mas era muito difícil mesmo assim...pelo menos eu só queria fazer alguns amigos e tentar ser feliz. Ia correr bem. Eu sentia.
Arrumei algumas coisas até tarde. Não podia ficar com tudo mas a maior parte das coisas, ia levá-las comigo. Fui tomar banho já tarde e depois fui-me deitar. Uma semana para me despedir definitivamente de tudo. E nem me podia encontrar com a maior parte dos meus amigos, mas ia fazê-lo. Despedir-me da família, da casa... Nunca pensei que isto acontecesse.
A semana passou. Muitas lágrimas cairam pela minha cara. Muitos pensamentos, memórias e despedidas.
- Então...vamos? - disse a minha mãe pondo a mão no meu ombro.
- Se tem de ser...
- Filha, acredita, vais gostar! Alemanha é um país muito bonito e cheio de oportunidades diferentes!
- Se tu o dizes...
Eu dava imensas respostas curtas nestes últimos tempos. Não tinha cabeça para grandes conversas. Ainda nem o avião tinha lenvatado voo e eu já sentia a falta de tudo. Íamos parar em Espanha e depois, Alemanha...
Durante a viagem algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto. Limpáva-as de maneira a que ninguém visse. Só via as coisas pelo lado negativo. Eu visto-me muito de preto, pinto os olhos de preto, uso caveiras, gravatas e imensas coisas que a maior parte das raparigas da minha idade não usa. Oiça rock, metal, punk entre outros estilos, mas visto-me assim. E se não havia ninguém como eu?
Chegámos ao aeroporto em Espanha. Já todos me olhavam de lado pela aparência. Eu rio-me sempre com isso porque acho que são pessoas ignorantes ao ponto de gozarem com alguém que se limita a ser ele próprio. Mas não me apteceu rir. Sentámo-nos nuns bancos que estavam lá. Passado uma hora, apanhámos outro avião.
Um sonho muito estranho. Algo que eu não conseguia compreender. Muitos jovens da minha idade à volta de um bloco de cacifos de escola. Parecia que colavam algo em todos os cacifos. Talvez autocolantes. Gritavam um nome que não conseguia perceber e depois riam-se. Riam descontroladamente e pareciam que gozavam de alguém. Depois ouvia uma pessoa a chorar. Virei-me. Era um rapaz da minha idade. Cabelo curto, preto com madeixas avermelhadas. Vestia-se como eu. Tinha um piercing na sua sobrancelha direita. Chorava no chão, com a cabeça entre as pernas e os braços em volta. Parecia-me realmente triste. Baixei-me. O rapaz olhou para mim. Acordei de súbito. O que se passava? Era só o avião. Tudo como estava antes de adormecer.
terça-feira, 10 de junho de 2008
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