Entrei de novo no ginásio. Todos me olhavam. Devia ser por ter estado a chorar. Vanessa e Bill seguiram-me outra vez. Não consegui encontrar nem o Tom, nem a Cindy.
- Alyssa! - exclamei, aproximando-me de uma colega minha. - Viste o Tom?
- Sim, saiu pelas traseiras com a Cindy. - afirmou Alyssa com uma cara do género: "há problemas". - Estiveste a chorar?
- Estive, Lyssa. Mas já se vai resolver tudo...espero eu. - afirmei.
Saí do ginásio pelas traseiras. Ao abrir a porta, vi, na relva, o Tom e a Cindy a beijarem-se. Ele estava por cima dela, em tronco nu. Ela tinha as alsas do vestido caídas. Cindy fitou-me.
Acenti com a cabeça.
" É isto que ele quer "
- Não me digam que ele não está com ela porque não quer. - disse, baixinho, para Bill e Vanessa, que ainda me andavam a seguir.
Atravessei a festa e saí do ginásio pela frente. Bill e Vanessa deixaram de me seguir. Acho que perceberam que eu precisava de ficar sozinha.
Fui caminhando até casa. Tirei o chapéu de bruxa. Aconcheguei o meu casaquinho preto e cruzei os braços. Deixei que o vento mandasse os meus cabelos para trás, deixei que o meu sub-consciente me guiasse até casa.
" Se ele se queria afastar, podia ter-me dito. Teria sido tudo tão mais fácil... "
As lágrimas voltaram a cair. Sem som, sem soluços. Apenas caíam no seu silêncio. A lua cheia e os candeeiros da rua iluminavam o passeio. A noite pareceu tão mais fria e insegura.
" Não percebo porque é que ele fez isto. "
*ANALEPSE* - " Nicky, eu... eu sei que podes achar que se calhar eu sou um idiota por ter curtido com várias miúdas e as ter levado para a cama... se calhar ainda pensas que te vou traír, que vou arranjar confusão, ou que...eu sei lá! Mas eu prometo-te, Nicky, prometo-te que não te vou trair nunca! "
Era o que ele me tinha dito. A sua voz ecoava grave e dócil na minha cabeça, como sempre. A noite, o cenário...
Era triste, sinistro. Senti-me desprotegida.
" Como é que foste capaz, rastafari? Eras o meu anjo. Foste tu que me guiaste quando precisei. Foste tu que me apoiaste, que estiveste comigo...até na morte do meu pai. Foste tu que me ajudaste, a mim e à minha mãe, quando ficámos sozinhas. Que faço agora sem ti? "
As imagens do Tom a trair-me invadiam-me a cabeça.
" Tu sabes que significas o Mundo para mim. Mas a minha consideração por ti ficou tão lá em baixo... Porque é que eu avancei na minha relação contigo? Porque é que chegámos sequer a resolver as coisas? Agora tenho saudades do tempo em que só discutia contigo. Mas isso vai voltar, porque eu não admito mais que me dirijas a palavra. "
Estava quase a chegar a casa... só mais duas ruas. Só mais duas longas ruas. Abrandei no passo. Não queria chegar a casa depressa.
" Ajuda-me, pai! Que faço sem ele? "
Entre pensamentos, cheguei a casa. Abri a porta, lentamente e sem forças. Entrei.
" Casa. Finalmente em casa. Podes cair na cama e... "
- Já em casa? É cedo para uma festa do liceu acabar. - a voz da minha mãe encheu a sala.
Eu não precisava daquilo. Eu não queria falar.
- É...a noite acabou. Pensava que já estavas a dormir. - afirmei com a voz ainda rouca.
Olhei-me no espelho.
" Não vais conseguir disfarçar, nota-se perfeitamente que estiveste a chorar. "
- Houve confusão? - perguntou a minha mãe.
" Não quero contar-lhe. Porque é que ela não podia simplesmente... já saber? "
- A noite acabou para mim. - respondi.
Fraquejei, falhei, ao tentar subir as escadas. Sentei-me num degrau. Voltei a cobrir a cara com as mãos.
- Que se passou? - perguntou a minha mãe.
Antes que eu pudesse aperceber-me, a minha mãe estava do meu lado. O seu braço cobria os meus ombros. Deixei-me cair de lado e chorar no seu colo.
" Eu quero contar-te, mas ainda não estou preparada. "
Eu pensava em tudo na minha cabeça, mas não conseguia soltar uma letra que fosse.
- Vai descansar. - disse a minha mãe, um bom bocado depois. - Amanhã falamos.
Subi ao piso de cima, tomei duche e fui para a cama.
" Só tenho de dar graças. Amanhã é sábado e não tenho de ver a cara dele. Segunda-feira, basta evitar encontrar-me com ele... "
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário